Primeiro,
vamos deixar claro uma coisa: o limite entre ter preconceito ou não, não está
diretamente relacionado a agredir ou não fisicamente aquilo que você não
tolera.
Só porque
você não espanca gays, negros, pobres ou qualquer outro grupo que vá contra as
suas crenças ou ideias não quer dizer que você não seja preconceituoso e sim
que é uma pessoa civilizada, o que já é alguma coisa nos dias de hoje, mas que –
nem de longe – te faz a pessoa mais tolerante do mundo.
Só porque
você só assovia, chama de vadia gostosa e diz que “tá pedindo”, mas não estupra
mulher que usa saia curta não quer dizer que você entenda completamente que o
corpo é dela, que ela tem o direito de usar o que quiser e que o problema não
está nas roupas dela e sim na sua mente pervertida que ainda pensa que ela é
objeto, está abaixo de você e que tem que “se dar ao respeito” se não quiser
ser chamada assim.
Só porque você
preferiu fazer uma piada baixinha com o amigo do lado ao invés de tirar foto de
alguém vestido de forma simples no aeroporto e postar com a legenda “rodoviária
ou aeroporto?” não quer dizer que você seja um especialista em igualdade
social.
Conceitos de
bem e mal a parte... Não fazer o mal
não é sinônimo de fazer o bem. Entre fazer o bem e fazer o mal ainda existe o não
fazer nada que implica diretamente em não falar no assunto, não discutir,
não questionar e manter as nossas convenções como estão, cada um no seu
quadradinho, reforçando a lógica do “eu não tenho nada contra desde que não
venha pro meu lado”, o que também não significa não ter preconceito. Aliás,
sempre que você fizer qualquer comentário que comece com “Eu não tenho nada
contra, desde que...” já tem uma enorme chance de estar sendo um completo
babaca, visto que o problema não está no comportamento dos oprimidos e sim na
convicção de superioridade dos opressores. Convicção essa que se reforça no dia
a dia de todas as formas possíveis. Das agressões físicas as ~piadinhas
inofensivas~. O engraçado é que as ~piadinhas inofensivas~ são sempre
pejorativas sobre alguém considerado inferior a condição do interlocutor.
Engraçado que até hoje não ouvi nenhuma de um príncipe nórdico dos olhos
claros, heterossexual, alto, magro e viril...
Inclusive,
outro dia, uma matéria da Folha de São Paulo trouxe algumas “dicas para evitar
a violência” que basicamente, consistiam em mudar o comportamento dos
agredidos. Logo surgiu um quadro que explicitou melhor o que realmente queriam
dizer:
Somos absolutamente
preconceituosos, mas o problema não é exatamente esse. O problema é que
preferimos continuar sendo analfabetos no que diz respeito a todo tipo de segregação
a buscar entender a realidade do outro e compreender que os direitos são iguais,
independentemente de cor, religião, orientação sexual, etc. Somos fantoches
governados pelos nossos próprios preconceitos, aprisionados na jaula dos nossos
parâmetros limitados. Não compreendemos a institucionalidade do preconceito em
empresas, movimentos e grupos. Continuamos reforçando a ideia estereotipada de
cada grupo oprimido e tratando as situações como se o preconceito não existisse
ou como se o agredido sempre “provocasse a agressão” ou com um simples “é foda”
acompanhado da troca de canal. Enquanto isso, a omissão continua sendo a forma
mais eficaz de deixar tudo como está, permanecendo na nossa confortável poltrona
enquanto assistimos horrorizados ao jornal noticiando crimes motivados pelo
ódio as diferenças todos os dias, esquecendo que quem não se posiciona, faz
tanto mal ou mais do que quem agride.

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