Quando escrevi o texto “Novas
Coisas Velhas”, optei por este título depois de escrito, fazendo uma analogia
aos conceitos que aprendemos logo cedo e que vão se reciclando, mudando e até
sendo deixados para trás durante a vida. Quando pensei especificamente no nome
em si, isso remeteu à diversas outras coisas que não estavam no mesmo contexto.
No dia seguinte, dando uma clássica e diária zapeada pelo Facebook, casualmente
encontrei uma página que falava sobre coisas antigas, onde pude rever algumas
sobre a minha infância: desenhos animados, kit’s de talheres com gravuras de
crianças e até um meme cantando a
música do Johnsons Baby Shampoo, aquela que dizia: “GoXtoooooso pra chuchu,
chuá, chuá, uuuh uuuh, vou lavar a cabeleira com o Johnsons Baby Shampoo” (eu
adorava cantar essa música. E confesso que ainda canto, imitando a voz do
ratinho e tudo).
Entre tantas outras coisas, uma
chamou mais atenção: O perfume da minha avó paterna. Já não lembro o cheiro,
mas a imagem permanece intacta. Um frasco cilíndrico, transparente,
quadriculado com um líquido amarelo que reluzia em sua penteadeira de um mogno
maciço com um enorme espelho emoldurado por todos os calendários possíveis,
como manda a tradição da adoração das avós por calendários grátis. Era um lugar
quase imaculado, como se fosse o seu santuário particular, com seus cremes,
escovas, loções e remédios, muitos remédios. Mas apesar da divina-penteadeira,
o meu lugar preferido da casa era outro, como manda a tradição da adoração aos
doces de avó por parte de todos os netos da minha família.
Na cozinha, além de mais
calendários, se via uma coleção de latas de alumínio de diversos tamanhos,
contendo as coisas mais deliciosas. Bolachas com cobertura de glacê (conhecido
também por merengue, batido a mão e a especialidade dela), rapaduras de leite,
brigadeiros e várias outras guloseimas que faziam a alegria das crianças de
todas as idades. Mas, além das guloseimas, aquelas latas tinham um certo
mistério que levava a contemplação. Por longos 10 segundos (e isso era o máximo
que eu aguentava), era necessário admirar aqueles objetos em respeito ao que
significavam: um símbolo histórico quase tão marcante quanto a penteadeira do
quarto.
A minha avó era um tipo de pessoa
que não vemos mais por aí. Todos esses doces e guloseimas eram divididos
igualmente em pequenas cestinhas a serem entregues aos filhos, aos netos, aos
vizinhos e a muitas crianças de bairros carentes em épocas específicas como
natal, dia das crianças, páscoa ou sempre que a sua debilitada saúde permitia
fazer as iguarias e sair de casa para fazer as “entregas” pessoalmente. Mas não
era “só” por isso que ela era uma pessoa diferente, era também pelo seu jeito,
pelo seu carinho, pela sua empatia, paciência, por todos os exemplos de
humanidade que tive dela e que talvez um dia eu conte mais aqui. Afinal faltou
falar da cadeira de balanço, da máquina de fazer tricô, da televisãozinha azul
com botão de girar e de tantas outras coisas que marcaram uma fase muito
especial para mim. E por isso o título deste texto é “Sobre Saudade”, assim com
“S” maiúsculo.
Ah, nessa página eu também
encontrei a capa do filme Abracadabra (Hocus Pocus) onde a Sarah Jessica Parker
interpreta uma das três irmãs bruxas, muito antes de eu ou ela nos encantarmos
com Sex And The City ou Cosmopolitans em taças de coquetéis.
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